|
Condomínios:
aborrecimentos comuns |
| Alguém
aí que mora em condomínio, já ouviu falar em problema
de vaga na garagem? De cachorro? De vazamento na coluna d'água?
“Chegou a um ponto que a gente não podia mais morar aqui
dentro”, afirma a pedagoga Ana Teresa Costa.
Vinte anos de água correndo pelas paredes. Quem é o dono do cano furado? “O problema não é aqui no apartamento. O problema é na cobertura”, garante Ana Teresa. A dona da cobertura quer comprovação. “Ela disse que é, mas também não provou que é. Eu disse tudo bem, desde que você me traga alguém que comprove de fato, porque senão todo mundo vai entrar lá em casa e dizer ‘foi daqui, foi acolá’. Eu, não vejo nada, na verdade”. Se ninguém conserta, a água corre e a conta aumenta. Num condomínio, que já foi cheio de vazamentos, a lição foi aprendida. “Nós criamos uma equipe capaz de diminuir esse gasto excessivo de água. São os caçadores de vazamento aqui dentro do condomínio. Olha a situação do cano, como é que fica, quando a gente troca. Era preciso fazer essa troca”, explica o síndico Salatiel da Silva. Tem até bombeiro de plantão pronto para quebrar a parede sem discussão. “Não é necessário brigar. Tão perdendo tempo. Sai muito mais barato fazer assim. Mesmo que houvesse problema de o morador não poder, não quiser pagar, o gasto de água que a gente vai evitar paga o conserto”, afirma Salatiel. Com os caçadores de vazamento em ação, o condomínio derrubou as despesas com água em 30%. A conta mensal passou de R$ 3,5 mil para R$ 2,4 mil, economia de R$ 13,2 mil por ano! Mas nem sempre dá pra agradar a todo mundo. Num prédio, cachorro pequeno pode. Passear no jardim pode. “Ele late e assusta as pessoas, mas não morde”, diz uma senhora. “Quando eu vou sentar nos bancos, ficam os pés cheios de xixi. Aí, me incomodo, sim”, afirma a vizinha. Ai de quem fale mal do Barão. “Pode não gostar, mas não fala e se falar, fica ele falando sozinho”. Os melhores amigos do homem são uma das maiores discórdias entre os condôminos. O morador gosta de cachorro ou quer manter distância deles? A regra é uma só: “Ler atentamente a convenção, porque ele terá que cumpri-la. Se ele, por exemplo, tem cachorro e quer levar o cachorro consigo, ele tem que ler a convenção pra ver se a convenção permite a presença de animais no prédio”, explica Sílvio Capanema, vice-presidente do Tribunal de Justiça (RJ). E quando a convenção não tem as respostas? Luiz Henrique diz que encontrou a moto dele caída na garagem. Prejuízo calculado por ele: R$ 12 mil. O condomínio disse que não tinha culpa. O bate-boca foi parar na mesa da juíza. Testemunhas foram chamadas. Só este ano, mais de 300 casos de problemas em condomínios já passaram pela sala de audiências. Mas a maioria teve o mesmo veredito: improcedente por falta de provas. A juíza aponta o melhor caminho para a solução. “O ideal seria que fosse resolvido ‘interna corporis’, ou seja, nas assembléias condominiais. O que se vê, de forma rotineira, é a ausência de urbanidade no dia a dia da coletividade que vive em condomínios”, relata a juíza Grácia Cristina do Rosário. Falta de diálogo, brigas na portaria, intrigas. Como trazer a civilidade de volta pros prédios? Pra tentar resolver esse probleminha, um síndico decidiu fazer mudanças no playground. Paredes subiram e, nelas, uma tabela periódica dos elementos, um mapa do Brasil e, do outro lado, uma pequena biblioteca. Agora, a maior mudança mesmo é uma sala de aula, exclusiva para os funcionários. Nela, eles aprendem português, conhecimentos gerais e boas maneiras. “Quando falar, presta atenção: não é ‘pobrema’. É problema!”, ensina a professora. Que diferença pode fazer uma palavra bem dita, um aperto de mão nos moradores? O supervisor do prédio Roberto Marques aprendeu a ter paciência e prestar mais atenção. “Eu paro e escuto. Antes, eu não escutava. Às vezes, o morador vinha chateado e eu também queria peitar, entendeu? A professora me transformou”. A sala de aula ajuda a perceber se existem problemas no seu condomínio, boa vontade e criatividade ajudam a resolver.
|
FONTE:
REPORTAGEM PRODUZIDA PELO JORNAL NACIONAL/ REDE GLOBO
DATA: 24/10/2007 |
|