Barulho atua como 'tortura chinesa',
segundo médico
Poluição sonora pode causar ansiedade, nervosismo, hipertensão arterial, úlcera e até impotência sexual
“A tortura chinesa funciona”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o médico Ricardo Bento. “Acontece todos os dias. O barulho não precisa ser alto. Mas se é incômodo, você começa a ficar estressado, a pressão arterial aumenta e, no longo prazo, causa todos os problemas e doenças relacionados ao estresse.”

Um exemplo, segundo o especialista, é deixar uma torneira pingando até que o barulho ininterrupto das gotas se torne insuportável e faça a vítima perder o controle. Em vez da água, podem ser usadas buzinas, britadeiras, música alta ou o zunzunzum de bares e restaurantes lotados. No início, causam apenas incômodo, mas ao longo do tempo provocam estragos.

Entre os principais males estão ansiedade, nervosismo, hipertensão arterial, gastrite, úlcera, distúrbios no labirinto e impotência sexual. Se o barulho acontecer durante a noite e atrapalhar o sono, tudo piora. Ao longo dos anos, isso aumenta a chance de desenvolver doenças cardíacas, diabetes e depressão, além de comprometer o sistema imunológico.

Segundo o médico, o ruído excessivo é um problema inerente às grandes cidades, que, apesar de grave, não recebe a devida atenção da sociedade. “As leis são ótimas, mas o problema é aplicar”, afirma. “É uma questão muito difícil porque depende da conscientização das pessoas. Não adianta colocar 5 mil fiscais.”

Norma Rodrigues Machado, de 71 anos, foi uma das vítimas da “tortura chinesa”. Ela precisou ser internada dois meses depois que a vizinha abriu uma academia de ginástica improvisada, na Estrada da Servidão, no Tremembé, zona norte de São Paulo, em 2003. Passou duas semanas no hospital, com crise de hipertensão e gastrite hemorrágica. Hoje, diz que, por conta do estresse provocado pelo barulho, precisa tomar remédios para pressão, estômago e depressão.

“Eu costurava e bordava, mas não consigo mais”, afirma Norma. “Era um nervoso, só música eletrônica, bate-estaca, sabe? Dentro de casa eu não podia fazer nada. Nem ver televisão.” O barulho parou há duas semanas. Depois de tentar várias vezes na Subprefeitura do Jaçanã-Tremembé, o filho, Edson, registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil e a vizinha foi chamada a depor. “Deus queira que agora ela continue quieta.” F.G.

CONHEÇA AS LEIS

Lei do Silêncio

A primeira multa varia de R$ 4 mil a R$ 17 mil. Caso o
barulho venha de um local sem licença de funcionamento, o valor aumenta para R$ 25 mil.

Se as irregularidades continuarem, nova multa, de R$ 32 mil. Após 60 dias, o local pode ser interditado

Lei da 1 hora

Para funcionar após esse horário, bares e restaurantes
devem ter isolamento acústico, estacionamento e segurança. Antes desse horário, devem respeitar a Lei do Silêncio

A multa é de R$ 26 mil. Caso haja reincidência, o local é lacrado.

FONTE: O ESTADO DE SÃO PAULO - CADERNO 1 - SÃO PAULO/SP
DATA:09/05/2008