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De polo econômico ao esvaziamento: 4º Distrito passa por cenário de incerteza após a enchente

24/06/2026

Antes das enchentes de 2024, o 4º Distrito era uma das regiões mais promissoras da Capital. Após as cheias, no entanto, a área foi de uma economia aquecida, com negócios em diversos nichos, para uma região que se vê “abandonada”. Os empresários e investidores do 4° Distrito comentam viver entre os extremos do sucesso e do fracasso. Oportunidades de negócio são constantes, mas existe uma sensação de esvaziamento pelo fechamento de empresas, pelas vias pouco movimentadas e as muitas fachadas com placas de aluguel ou venda.

 

O relato de moradores e comerciantes locais deixam nítido uma mudança no cenário de investimentos, públicos ou privados, após as enchentes de 2024. ”O que sentimos, é que está tudo muito largado e que a prefeitura poderia investir mais. Teriam que tentar continuar com a revitalização que estava ocorrendo antes da enchente”, afirmou Marcos Justo, que tem um ponto comercial no bairro São Geraldo e viu muitos clientes, que incluíam moradores e trabalhadores da região, deixarem o local após a água castigar o 4° Distrito.

 

 

Barato para vender, caro para alugar

Mesmo após a retomada plena do funcionamento dos transportes públicos, incluindo os ônibus e o trem, a área segue com um fluxo pequeno de pessoas, se comparado aos melhores momentos do pólo econômico e cultural. Com menos circulaçãos, os negócios acabam movimentando menos dinheiro, se tornando um risco para quem depende, essencialmente, de clientes para tocar o negócio, como donos de bares, restaurantes e festas.

 

Ricardo Cioba, sócio-proprietário do Largo da Chosen, também notou o esvaziamento do bairro. “Há muitos prédios e pavilhões vazios, com placa de ‘Aluga-se’. Isso mexe com o bairro como um todo, acaba afetando os restaurantes e as lanchonetes”. Para o empresário, o abandono também se manifesta na segurança. “Esta atmosfera acaba trazendo a sensação de insegurança. Já tentaram entrar no meu bar, ‘volta e meia’ levam um ar condicionado e nada se faz sobre esses casos. A região está abaixo do que era antes da enchente”, argumentou.

 

O esvaziamento gera outro efeito cascata na economia local: o encarecimento do aluguel. De acordo com dados do Sindicato da Habitação do RS (Secovi-RS), o preço do metro quadrado para locação cresceu no bairro Navegantes, indo de R$ 25,11 para R$ 28,59, totalizando um aumento de 13,85% desde 2023. No mesmo período, o crescimento foi ainda maior no bairro Floresta, saindo de R$ 17,74 para R$ 26,92, crescendo 51,74% igual período.

 

Ao circular pela região é possível ver as consequências dessa disparidade, com prédios residenciais, pavimentos inteiros, apartamentos e muitos pontos comerciais desocupados, depredados ou com placas de “aluga-se”.

 

Infraestrutura e as "Bolhas" no 4D

Os empresários, em especial do ramo da gastronomia e de festas, informam que poucos pontos do 4° Distrito seguem mantendo o mesmo fluxo de investimentos após a enchente. Com um fomento financeiro constante, o Instituto Caldeira mantém a estabilidade, em contraste com o restante da região. “Enquanto no São Geraldo e no Navegantes, não vejo nenhuma grande ação de reconstrução, o Caldeira acaba sendo uma ‘bolha’ no meio disso tudo”, reforçou o empresário Ricardo Cioba. “Seja através de parceria público-privada ou com investimento público, o bairro precisa dessa atenção”, assinalou.

 

Para quem já passou por outras dificuldades desde que investiu no 4° Distrito, o pós-enchente é marcado como a retomada mais difícil, especialmente pela falta de fomento. Para Rafael Schutz, sócio-proprietário do Córtex Bar desde 2019, a recuperação da pandemia mostrava uma atenção maior à região. “Vimos vários estímulos e cuidados chegando aqui, desde iluminação pública, calçamento, podas, tudo que a região precisava e acabaram atraindo mais pessoas e mais bares. Desses, quem não tinha um caixa a mais, não conseguiu aguentar o pós-enchente. O movimento inverteu, de muitos bares fechando”, apontou.

 

Além das melhorias para evitar cheias e da recuperação da região, através de arborização e calçamento, outro ponto reforçado por Rafael é o aumento de ações de policiamento, gerando um ganho significativo para o movimento noturnodo 4° Distrito. “Uma segurança pública mais ativa permite maior circulação na região. As pessoas se deslocam entre um bar e outro com tranquilidade”, reforçou.

 

Em dezembro de 2025, o prefeito Sebastião Melo assinou o decreto 23.605/2025, que proporciona uma redução percentual do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) nas áreas afetadas pela enchente, o que inclui grande parte dos bairros que compõem o 4º Distrito. No entanto, os empresários da região enxergam essa medida como insuficiente, em especial os que não são proprietários dos espaços.

 

Poder público indica que mantém forças de segurança atuando na região

Correio do Povo questionou a Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão (SMPG) sobre projetos ou incentivos para o 4° Distrito. Em resposta, a SMPG indicou que, ao longo dos próximos anos, o POA Futura deve investir no desenvolvimento socioeconômico do 4º Distrito, por meio de obras de infraestrutura, fomento ao turismo e valorização do patrimônio arquitetônico, contemplando macrodrenagem, melhorias no transporte coletivo e ações de reurbanização.

 

Em relação ao IPTU, a Secretaria Municipal da Fazenda (SMF) apontou que o estudo, realizado em virtude da Lei Complementar 1.018/2024, analisou 131.723 imóveis localizados na área abrangida pela mancha de inundação. Desses, 10.824 tiveram redução de valor venal reconhecido pela Prefeitura, o que refletiu na redução do IPTU lançado em 2025 desses 7.110 casos. Em outras 3.714 situações, embora tenha sido constatada redução do valor venal, não houve impacto no valor do imposto em razão das regras legais de limitação de reajustes previstas na legislação tributária municipal.

 

Em nota, a Brigada Militar indicou que mantém policiamento preventivo e repressivo nos principais pontos de circulação de pessoas no 4º Distrito, além da atuação de Força Tática e das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), que realizam patrulhamento direcionado. No posicionamento, a BM também indicou que “embora a percepção de insegurança seja uma preocupação legítima e receba atenção permanente da corporação, não procede a afirmação de ausência de ações policiais na região”.

 

Também por nota, a Secretaria Municipal de Segurança (Smseg) indicou que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) acompanha as demandas relacionadas à segurança no 4º Distrito e mantém ações permanentes na região, incluindo patrulhamento preventivo, operações integradas com a Brigada Militar e a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), que incluem a fiscalização de estabelecimentos e diálogo com moradores e comerciantes.

 

 

Fonte: Correio do Povo